Em entrevista exclusiva, cônsul italiano Filippo La Rosa revela suas impressões sobre o mundo do cinema

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Em entrevista exclusiva, cônsul italiano Filippo La Rosa revela suas impressões sobre o mundo do cinema

BRUNA GALVÃO

Desde que assumiu o Consulado Geral Italiano em São Paulo  há dois anos, Filippo La Rosa é figura presente nas edições do Festival de Cinema Italiano no Brasil, maior evento do gênero na América do Sul. Em 2020, no auge das celebrações da 15ª edição do evento, o cônsul garantiu sua participação durante a memorável Noite de Abertura do Festival, ainda que em formato drive-in, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, no último 17 de novembro.

“Foi um momento interessante, ainda que uma forma peculiar das pessoas se encontrarem (de dentro de seus veículos)”, comenta La Rosa, que cumprimentou os demais participantes com um “golpinho” de farol em seu carro.

Nesta entrevista exclusiva para a equipe do 15º Festival de Cinema Italiano no Brasil, concedida em 30 de novembro em sua sala no Consulado, Filippo La Rosa revela sua visão sobre a alternativa do formato drive-in para o público de cinema em tempos de pandemia.

Também comenta sobre a importância dos festivais em proporcionar programação acessível e de qualidade à população, fala sobre o reflexo das questões contemporâneas nas produções cinematográficas e destaca o papel dos jovens e desconhecidos na filmografia contemporânea.

FESTIVAL O senhor tem comparecido nas aberturas das últimas edições do Festival de Cinema Italiano no Brasil. Neste ano de pandemia, fizemos a abertura de nossa 15ª edição em estilo drive-in para reunir as pessoas e trazer alegria a elas, sem que isso signifique causar aglomeração. Quais são suas impressões sobre o evento deste ano?

FILIPPO LA ROSA Minha visão, infelizmente,  é clara: no sentido que preferia a abertura do ano passado (risos), com aquela aglomeração de pessoas, que é a natureza do ser humano.

Mas deixando a brincadeira de lado, foi um momento bem interessante porque foi uma forma ainda que peculiar, das pessoas se encontrarem. Claro, eu estava no meu carro, outras pessoas estavam no carro delas e não tinha comunicação (entre nós). A gente deu um “golpinho” de farol ou (fez) uma saudação com a mão, a quatro, cinco carros de distância, mas não é o que estamos acostumados a ver e a vivenciar. Como dizia Maquiavel, de necessidade e de virtude, a gente faz da virtude aquilo que se tem; hoje é isto.

Então, parabéns à diretoria da Câmara (de Comércio Italiana de São Paulo – Italcam), ao Nico Rossini (diretor da Italcam), que junto com a Erica (Bernardini, diretora artística do Festival de Cinema Italiano no Brasil) são a alma deste festival! E bola para frente!

FESTIVAL Esta foi a sua primeira vivência em um drive-in?

LA ROSA Na verdade, não. Eu vivenciei, dois meses antes (da abertura do 15º Festival de Cinema Italiano no Brasil), uma tarde com minhas filhas no Alliance Park, assistindo a um show do DPA. Achei a fórmula boa para as crianças, para se aproximarem, mesmo que filtrados pelos vidros dos carros.

A da inauguração (em formato drive-in) do Festival (de Cinema Italiano no Brasil) foi a (minha) segunda (experiência).

Acho que (o drive-in) é uma solução intermediária, na qual é realmente complicado trocar impressões, sensações, como quando a gente vai ao cinema e troca impressões quando o filme acaba: mesmo  (entre) as pessoas que não se conhecem,  (elas) escutam (entre si) algumas considerações a respeito do que a gente acaba de ver. No drive-in, infelizmente, não dá para fazer isto. Mas foi uma experiência interessante.

FESTIVAL O Festival chega à sua 15ª edição e a cada ano, tem se alinhado com o perfil de outros festivais, como o Festival de Veneza. Este ano em Veneza, por exemplo, foi exibido o filme Buraco Fatal, que também foi uma experiência drive-in, só que com projeção à beira-mar. Outro filme exibido foi a Verdade Sobre a Doce Vida e também teve o Não Odeie, que foi o único filme italiano a concorrer na Semana Internacional da Crítica de Veneza (todos os filmes citados estão sendo exibidos no 15º Festival de Cinema Italiano no Brasil). Como o senhor recebe o 15º Festival como o maior do gênero na América do Sul?

LA ROSA São momentos importantes porque a forma de curtir o cinema mudou muito nos últimos 20 anos: a gente passou pelo blockbuster até a Netflix; já as salas de cinema, infelizmente, se esvaziaram. Esta nova forma de aproveitar, de curtir o cinema, e estou falando dos festivais, continuam tendo a sua importância, porque é um momento de organização de uma curadoria (em) propor o “filme A” no lugar do “filme B” e não deixar aquela plataforma aberta à simples “visão” do telespectador. É se colocar no meio com sua capacidade, seu conhecimento, sua qualificação e propor ao espectador à sua visão, o seu produto e isto acho fundamental para o cinema italiano, que é um cinema que tem muita história, tem uma grande tradição, mas que não é feito em uma língua veicular como o inglês, que abre mercados mundiais. Estas atividades, como o Festival de Cinema (Italiano) em São Paulo, ajudam a propor ao público, seja ele cinéfilo ou generalista, uma visão intermediada, filtrada, com qualidade, que é um valor a mais que a gente tem que reconhecer e valorizar.

FESTIVAL Nesta questão de agregar valor, o cinema, de um modo geral, entretém, informa, retrata uma realidade. Na mostra deste ano, por exemplo, temos o Vidas (In)Visíveis – Um arsenal de esperança, sobre a imigração italiana, o Irmãos à Italiana, que tem a temática do terrorismo dos anos 1970, Não Odeie, que fala sobre o Holocausto e Pode Beijar o Noivo, sobre o casamento gay. Como o senhor vê a nossa realidade retratada no cinema?

LA ROSA A realidade de todas as épocas, nos últimos 130 anos, acabou se refletindo no cinema.

 O cinema tem uma magia incrível, com sua projeção de imagem, seja ela preto-e-branco, colorida, ou em 3D. Através desta magia, em qualquer época, foram se refletindo os momentos cruciais da realidade durante os momento histórico, como a grande industrialização – e penso em Charles Chaplin… Tivemos os momentos da grande crise (econômica) de 1929, os relatórios das guerras (mundiais), do holocausto. Indo um pouco mais para o cinema italiano, o Neorealismo, esse novo renascimento da sociedade nos anos 1950, que fez de um país que saiu da guerra um modelo de crescimento mundial. Até hoje (isto acontece) (através das) temáticas que foram colocadas aqui (pela repórter)… O cinema reflete a sociedade. Um diretor de cinema é um senhor de óculos, que enxerga a realidade e tem a capacidade de projetar esta realidade com seus olhos, com seus ouvidos, com seus sentimentos. Isso é a grande magia do cinema que, a meu ver, e não sou um grande “fruidor” de cinema,  (mas que) gostaria ainda de continuar curtindo uma sala de cinema e não (assistir a filmes) em frente à uma televisão. Mas esta é só a minha visão pessoal.

FESTIVAL O Festival de Cinema Italiano foi pioneiro e ainda hoje tem esta marca de oferecer não só uma programação contemporânea, mas também, uma programação clássica. Neste ano de 2020, temos a Retrospectiva das Estrelas, que traz 12 dos melhores filmes, com Totò, Pasolini, Servillo e outros. O cinema clássico nem sempre está acessível ao público. Como o senhor analisa esta disponibilidade?

LA ROSA Acho isto uma grande oportunidade para o público que conhece e que não conhece (o cinema italiano). Como falei, nos últimos anos, passaram vários expoentes de ponta do Neorealismo Italiano, como Ettore Scola,  (Franco) Zeffirelli… Agora  (Ennio) Morricone, como diretor musical. Consegui tocar “com a mão” o grande apelo que existe na sociedade brasileira para propostas (do tipo). O feito de que esta proposta esteja disponível graças ao Festival (de Cinema Italiano) da Câmara de Comércio de São Paulo para um público que só entrando nesta oferta pode ver aquilo que é difícil de achar e, achar com qualidade. É um grande serviço para o país. Assim como nós (do Consulado Geral Italiano em São Paulo) realizamos exposições dos anos 1950, 1960 sobre o Modernismo e tudo mais, o cinema que é produzido hoje, é muito mais fluível nas plataformas. Então, meus parabéns e meus agradecimentos ao Festival (de Cinema Italiano no Brasil) por fazer com que esta oferta seja disponibilizada a todos, que seja um instrumento (de acesso à) quem não conhece e que vai apreciar.

FESTIVAL No sentido de acesso desta nova oferta, o Festival traz muitos diretores premiados, com destaque para os jovens premiados, mas que não são conhecidos pelo público brasileiro, como o Mauro Mancini, de Não Odeie, os irmãos Miyakawa de Vida Fácil

LA ROSA Não é por acaso que este ano, o Consulado deu o seu patrocínio ao Festival de Cinema da Câmara de Comércio de São Paulo, porque assim como nós, que promovemos artistas de outras artes não conhecidos, acho apreciável que a Câmara, que faz este trabalho há 15 anos, promova diretores que não sejam conhecidos, atores que não sejam conhecidos pelo público brasileiro. É uma forma de promover a nossa realidade cinematográfica, assim como nós promovemos cantores, poetas, artistas, literários… É uma ação muito importante, que vai ajudando neste conhecimento da Itália contemporânea, porque se é verdade que temos Fellini, Antonioni, até chegar aos mais novos, como o ator Toni Servillo, também há uma produção nova. A gente tem que ajudar os jovens, mas jovens de verdade, não jovens de 50 anos, porque o futuro é deles. É bom que se saiba que eles existem e que uma plateia diferente da italiana possa conhecer o trabalho deles. É o objetivo de quem, como nós, promove o país mundo a fora. É fácil falar de Raffaello, Michelangelo ou Gassman e Fellini. (Falar sobre os jovens) é mais difícil, exige mais trabalho, mas também dá mais satisfação falar daqueles que têm um futuro pela frente e que têm muito terreno para desbravar e para conquistar.

FESTIVAL Sobre os desconhecidos, umas das características do evento deste ano é promover  nomes que fazem o cinema italiano por trás das câmeras. O documentário A Verdade Sobre a Doce Vida, de Giuseppe Pedersoli, conta a história de Peppino Amato, um produtor neorealista muito famoso, cujo trabalho foi fundamental para o lançamento de A Doce Vida, de Federico Fellini. Como o senhor vê a importância destes trabalhos nos bastidores do cinema?

LA ROSA Vejo bem. Tudo aquilo que amplia a visão sobre o meu país é muito bem-vindo, muito bem considerado. Acho que todos nós, que de uma forma institucional ou para-institucional, representamos a Itália aqui em São Paulo temos este dever (de ampliar o conhecimento sobre o país na cidade).  Assumi São Paulo para poder ampliar o bolo, já que tem muito para ser oferecido aos brasileiros, de forma que eles possam apreciar o tanto que a Itália faz em tantas áreas. Então, mais uma vez, os parabenizo.

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